O estágio como procedimento pedagógico na formação do jornalista

O estágio como procedimento pedagógico na formação do jornalista Valci Zuculoto* O estágio em jornalismo deve constituir uma prática didático-pedagógica do ensino de jornalismo e precisa ser um “estágio acadêmico”. No entendimento da Fenaj – Federação Nacional dos Jornalistas, trata-se de uma ação também essencial à qualificação da nossa formação profissional. Nestes tempos em que enfrentamos os ataques a nossa regulamentação profissional, através do fim da obrigatoriedade de formação superior para o exercício do jornalismo, o estágio, com a concepção e nos moldes que está sendo proposto pela Fenaj, destaca-se como mais uma ferramenta a explicitar a importância do ensino superior para a profissão do jornalista.

Por lei, o estágio continua proibido, desde que caracterizado como exploração de mão de obra barata. A Fenaj vem incentivando, promovendo e coordenando o desenvolvimento de projetos pilotos de estágio acadêmico, dentro do processo de implantação do Programa Nacional de Estímulo à Qualidade da Formação Profissional dos Jornalistas. Ao aprovarem a realização destes projetos de estágio, durante o seu Congresso Nacional de 2000, em Salvador, Bahia, os jornalistas fizeram questão que fossem acadêmicos e se desenvolvessem sob a orientação da Comissões de Gestão de Qualidade de Ensino, propostas pelo Programa, para que realmente contribuíssem e resultassem em melhoria na formação do jornalista.

Este Programa, que tem o Fórum Nacional dos Professores de Jornalismo como um dos signatários, é resultado de um grande acúmulo no debate, na formulação e na luta pela qualidade da formação profissional, incluindo, portanto, a qualidade do ensino de jornalismo. Uma qualidade que - tenho repetido insistentemente sempre que tratamos deste tema - não pode ser entendida de uma forma meramente tecnicista. Não queremos apenas uma qualidade formal, técnica, mas, e principalmente, uma qualidade de conteúdo que atenda ao interesse público a que deve estar sujeito o jornalismo.

E este acúmulo se insere numa luta maior dos jornalistas: a luta pela melhoria, ética e democratização do jornalismo praticado diariamente, a qual sempre tem incluído, também, a batalha da categoria por uma identidade profissional, pela sua regulamentação ( onde se inclui o diploma ), não num sentido corporativista, mas tendo, como referência, justamente o interesse público que envolve a nossa atuação como jornalistas.

Por isso é que durante muitos anos fomos contra a permissão do estágio. Entendemos que o estágio só poderia ser liberado se isto ocorresse como uma ação pedagógica que viesse a contribuir verdadeiramente para a melhoria, a qualificação da nossa formação. E isto só seria – e foi possível – formulando e constituindo o estágio como uma ação do Programa de Estímulo à Qualidade da Formação.

É importante ressaltar, recordar também que este Programa e todas suas ações decorrentes não foram formuladas, criadas e implantadas da noite para dia, de maneira isolada. O Programa resultou justamente do acúmulo que falava há pouco e que teve um dos seus pontos altos em 1997, com a promoção, pela Fenaj, de um Congresso Nacional dos Jornalistas extraordinário, para tratar justamente da formação profissional. O Congresso, realizado no Espírito Santo, em Vila Velha, lançou as bases deste Programa Nacional de Estímulo à Qualidade da Formação em Jornalismo.

Na seqüência, Fenaj e Sindicatos passaram a divulgar e a aprimorar este Programa, sempre buscando reunir, neste esforço, todos os segmentos relacionados direta e indiretamente não apenas com a formação em jornalismo, mas com a comunicação.

Hoje, o Programa que a Fenaj e os Sindicatos lutam para implantar em todo o país já está mais avançado, resultando de uma elaboração conjunta, a nível nacional, com a Enecos ( Executiva Nacional dos Estudantes de Comunicação), Abecom (Associação Brasileira de Escolas de Comunicação), Compós ( Associação Nacional de Programas de Pós-graduação em Comunicação) e Intercom (Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação). Ano passado, também passou a ser defendido pelo Fórum Nacional dos Professores de Jornalismo. Igualmente foi decisiva, para o Programa, durante a década de 90, a ação do Movimento pela Qualidade do Ensino de Comunicação, que contribuiu muito no esforço de aglutinar os diversos segmentos preocupados com a formação. Baseada em todas estas, para nós, consistentes elaborações e ações, a Fenaj vem colocando o Programa como resposta, proposta, alternativa à construção de formas de atendimento às aspirações, não só da categoria, como dos demais segmentos do campo da comunicação e da sociedade para a qualificação da nossa formação profissional e, consequentemente, do próprio jornalismo. Afinal, o Programa aborda todas as questões que envolvem a formação e apresenta proposições, inclusive para a busca de solução de alguns impasses históricos, entre os quais destaco a própria questão do estágio e a da obrigatoriedade do diploma.

Hoje, já temos mais de 200 cursos de jornalismo no país e muitos outros se encontram em fase de constituição (autorizados ou próximos do processo de reconhecimento).

Como estimular, fiscalizar, avaliar e garantir que tantos cursos tenham a qualidade tão perseguida e pregada pela Fenaj e demais segmentos relacionados com a formação? O que fazer para que milhares de novos jornalistas saiam anualmente das universidades em condições de exercer correta e qualificadamente o jornalismo? Quais ações e mecanismos mais adequados para isso? Pois uma das soluções é a recomendação, pelo Programa, de constituição de instâncias e processos de gestão da qualidade do ensino. Propõe comissões de gestão da qualidade do ensino nacional, regionais e por escola. Estas comissões, integradas pela categoria, através dos Sindicatos e Fenaj, pelos professores, universidades, estudantes e empresariado da comunicação, entre outras atribuições, coordenariam iniciativas de avaliação sistemática da qualidade do ensino em cada escola. E também é no âmbito destas Comissões que estamos implantando o estágio acadêmico.

Hoje, em vários estados, já estamos promovendo a constituição destas comissões de qualidade de ensino, que estão se responsabilizando pela implantação de projetos pilotos de estágio acadêmico e poderão, na seqüência de seus debates e trabalhos, firmarem-se como formas de gestão e avaliação de qualidade. Porque também entendemos que gestão e avaliação não podem ser momentos, mas sim processos. Já iniciaram o processo de formação das comissões os estados de São Paulo, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Mato Grosso do Sul, Espírito Santo, Paraná, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Pernambuco. São Paulo, além de constituir a comissão, conseguiu avançar na implantação dos pilotos de estágio e já está desenvolvendo a prática pelo segundo ano. Em Santa Catarina o estágio também já está sendo praticado de acordo com as recomendações do Programa Nacional de Estímulo à Qualidade de Ensino.

As especificações e recomendações para viabilizar o estágio como uma ação realmente didático-pedagógica, que contribua para a melhoria do ensino e qualificação da formação, são descritas nos anexos do Programa. E devem atender aos seguintes objetivos estratégicos:

a) efetivo cumprimento de finalidades didático-pedagógicas, com acompanhamento no âmbito da escola e da empresa; b) realização do estágio nos dois últimos semestres do curso; c) delimitação do número de estagiários por redação ou empresa; d) delimitação do tempo de estágio; e) a garantia de não se firmar acordo para a realização de estágio com empresas que mantiverem pessoas exercendo irregularmente a profissão em seus quadros; f) existência de meios para assegurar o efetivo cumprimento do estabelecido na regulamentação acordada; g) garantia de que o estágio não substituirá as exigências de manutenção de laboratórios pelas escolas; h) normatização da utilização do material produzido pelos estagiários. No processo de implantação do estágio que vem estimulando e coordenando em todo o país, a Fenaj também tem recomendado e orientado aos Sindicatos que, no âmbito das Comissões de Gestão de Qualidade de Ensino, o cumprimento destes objetivos estratégicos seja negociado levando-se em conta a realidade de cada região.

* Valci Zuculoto é professora do Curso de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC ), Diretora de Educação da Fenaj, Diretora do Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina, Coordenadora da Campanha Nacional em Defesa da Regulamentação da Profissão de Jornalistas e Coordenadora Editorial do Projeto Universidade Aberta da UFSC, uma agência de notícias multimídia desenvolvida com alunos bolsistas, extra-curriculares e voluntários. e-mails: valci@cce.ufsc.br valzuculoto@hotmail.com

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