Jornalistas debatem cobertura do suicídio pela imprensa

Jornalistas debatem cobertura do suicídio pela imprensa



Estudantes, profissionais e pesquisadores de jornalismo participaram, nesta sexta-feira, dia 25, de um debate sobre um dos temas mais polêmicos no exercício da profissão: a cobertura do suicídio. Realizado pelo Sinjorba em parceria com a Facom-Ufba no auditório da Faculdade, o evento faz parte do compromisso do Sindicato em contribuir para a valorização do jornalismo.

A professora doutora Malu Fontes, abriu a discussão fazendo uma crítica a abordagens que aumentem o sofrimento de amigos e parentes de quem executou um ato extremo. “É sensacionalismo contar a história de alguém para mexer na ferida de uma família que não vai fechar. Se quando falamos que queremos cobrir suicídio for para fazer desta forma, é melhor seguir a recomendação de não falar de forma alguma. O que o jornalismo precisa é falar sobre o suicídio através de um perfil fenomenológico do problema.”, disse. A professora avalia que dados mais acessíveis e detalhados sobre o suicídio e a compreensão, através do relato dos sobreviventes, de causas para que seja possível ajudar quem esteja em sofrimento poderiam levar a matérias de qualidade.

Falou de sua vivência em clínica individual. “Estamos num momento de desesperança muito alta, com incertezas que geram frustrações, situações que são fatores de risco para o suicídio”, alerta. A médica lembrou que mesmo tendo um perfil mais suscetível, é preciso focar na prevenção com todas as pessoas que estejam com pensamentos de morte ou, mais graves, já estejam na fase de ameaças ou tentativas. “Quem avalia a possibilidade do suicídio está em sofrimento e busca uma forma de acabar com a dor, por isso é preciso ajudar a superar o problema que gera essa dor”, orienta.

Coordenador do SAMU de Salvador, o médico Ivan Paiva demonstrou preocupação com a garantia da privacidade especialmente nos casos que envolvam óbitos. “Além da imprensa, enfrentamos hoje o desafio do crescimento das redes sociais, onde cada indivíduo se sente um repórter. Os detalhes de um quadro clínico devem ser resguardados”, frisa. Uma das preocupações do serviço é a percepção de que o suicídio tem crescido como epidemia. “Nas nossas sessões clínicas mensais, sempre perguntamos quem atendeu a tentativas de suicídio no período. Todos os médicos sempre respondem positivamente.”, lamenta.

Dr. Ivan ainda destaca que o SAMU atende aos familiares nestes casos devido ao forte impacto causado no ato e que quando ainda existe chance de reverter uma tentativa de suicídio, é uma corrida contra o tempo e a necessidade de desviar o foco do salvamento para responder às demandas da imprensa pode comprometer a vida que está em risco.

Outro alerta para jornalistas é de, nos casos de tentativa, não usar termos como “não teve sucesso”, afinal, preservar a vida é sempre uma vitória. É preciso também refinar o atendimento médico após a alta hospitalar de quem tentou suicídio e sobreviveu.

A Polícia Militar tem feito qualificação constante nos seus negociadores, já que a PM é, frequentemente, o primeiro contato da população em situações críticas. “A Polícia tem uma relação direta com a imprensa, mas nos preocupamos em saber como o jornalista quer essa informação e com o nosso papel social, que exige que tenhamos zelo sobre como fazer isso”, contou o capitão José Muniz.

Representando a Facom, o chefe de departamento, professor Washington Souza Filho destacou a necessidade da formação continuada, especialmente neste momento desafiador. A secretária de relações institucionais do Sinjorba, Marjorie Moura, lembrou a aridez de lidar, como repórter, com a morte. “Contar estas histórias, indo além do tabu, deve ter como intuito contribuir para a informar a população sobre cuidados que ajudem a evitar outros casos”, destaca.

Imagens chocantes, detalhes sobre o método empregado para por fim à vida e especulações sobre motivos foram duramente criticados por todos os participantes que acreditam serem notícias que estimulem novos casos, além de aumentarem a dor da família enlutada. Informações sobre superação e sinais que podem alertar amigos e parentes de quem alguém precisa ajuda estão no campo do papel social da imprensa. A Associação Brasileira de Psiquiatria disponibiliza no link Manual de Imprensa um documento com orientações para meios de comunicação.

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