Guerra contra o Covid-19: Trabalho de cientistas precisa ter mais destaque na imprensa

“A imprensa tem um grande papel para esclarecer a população sobre como funciona a pesquisa científica, já que não será em poucos dias que teremos a resposta que as pessoas desejam para a crise gerada pelo Corona Virus”, afirma o neurocientista Miguel Nicolelis, que fez videoconferência voltada prioritariamente para profissionais da comunicação, nesta terça (07), Dia do Jornalista.
Nicolelis, que é coordenador do Comitê Científico do Consórcio Nordeste e professor da Universidade de Duke (EUA), atendeu a convite do Sinjorba, inaugurando um ciclo de debates chamado de Encontros Digitais, promovido pelo Sindicato. O evento, que conta ainda com o apoio da ayoo.com.br, reuniu 141 participantes num debate aprofundado sobre a pandemia.
Entre os principais recados deixados pelo neurocientista está a importância do distanciamento social como defesa central contra o Covid-19, uma vez que a crise no sistema de saúde poderá se aprofundar assim que começarem as doenças sazonais comuns do inverno do Hemisfério Sul, agravadas pela alta densidade populacional nas periferias.

Estado de guerra
“Estamos em um estado de guerra. Numa luta inédita, contra um inimigo desconhecido, invisível, encontrado há pouco mais de três meses, e precisamos informar e convencer as pessoas sobre a letalidade e a gravidade dele”, disse o cientista ao elogiar a iniciativa do Nordeste em criar o que chamou de Estado Maior Científico.
Outro destaque trazido pelo professor foi sobre como o papel estratégico da ciência está evidenciado no mundo todo, neste momento. Diferente das situações acadêmicas, porque se trata de uma situação multidimensional e urgente, existe uma corrida de cientistas de diversos campos. Biologia, Medicina, Engenharia, Ciências da Computação caminham em frentes imediatas para reconhecer o inimigo e saber como criar defesas contra a pandemia.
O pesquisador lembrou ainda que estudos in vitro são promissores, mas podem não resolver quando aplicados em seres vivos. Por isso, os cientistas precisam seguir um processo que demora mais do que o desejo de respostas imediatas para a população.

Combater as fake news
As informações falsas ou fraudulentas geram ansiedade, perda de tempo em respondê-las e vários outros problemas para a gestão. Os estudos sobre hidroxiclorquina, por exemplo, têm sido questionados pela comunidade científica por falta de consistência. Por outro lado, é fato que o isolamento social mostra-se o melhor recurso para reduzir a contaminação. E o Comitê Científico recomendou a ampliação das restrições de circulação, o que foi acatado pelos governadores do Nordeste.
No âmbito da economia, as fake news podem causar um estrago sem precedentes. Um dos grandes medos da população é a recessão econômica, mas “o distanciamento social é vital. Hoje, foi publicado um artigo no New York Times, mostrando que na pandemia de 1918 – que teve um efeito devastador nos Estados Unidos -, as cidades que começaram quarentena e distanciamentos sociais antes e mantiveram por mais tempo, foram as que se deram melhor na recuperação econômica pós crise” explicou o professor, reafirmando que “a prioridade agora é salvar vidas”.

Dados precisos
Nicolelis também mostrou a necessidade da coleta de dados de qualidade, que possam subsidiar as decisões e ações com base em evidências científicas, para conter o avanço da doença. “Os modelos baseados na realidade da Europa ou dos Estados Unidos não levam em conta muitas variáveis da nossa região. Com os modelos brasileiros, que estão sendo feitos com muita qualidade, vamos ter uma dimensão mais precisa sobre a letalidade que essa pandemia pode gerar no Brasil”, disse.
As condições socioeconômicas e a sazonalidade do nosso país não são levadas em conta nos modelos matemáticos importados. Coletar dados, mesmo que com base em evidências clínicas, se não houver testes, será importante para projetar como será a situação local. Uma das ferramentas que devem ajudar vai permitir o monitoramento e coletar dados em tempo real para identificar os focos que estão aparecendo no Nordeste, contribuindo para a distribuição de insumos e alocação de equipes.
Os pesquisadores do comitê científico do Consórcio Nordeste têm cooperado e trocado experiências com outros grupos do Brasil e de diversas partes do mundo. A velocidade da troca de informações de qualidade é uma forma de encontrar mais rapidamente formas de enfrentar a pandemia. Cientistas que queiram colaborar podem entrar em contato com nicolelis@isd.org.br .
“A subnotificação é geral, não é um fenômeno de um estado ou outro. Começamos. há três semanas, contabilizar óbitos por insuficiência respiratória ou pneumonia, evidentemente que nem todos terão a doença, mas o aumento já é evidente”, aponta. Embora reticente em cogitar uma estimativa, o pesquisador acredita que o número real seja cinco a dez vezes maior do que os notificados.

Máscaras sempre
Nos próximos dias, o Comitê Científico deve recomendar o amplo uso de máscaras, mesmo as caseiras, para proteção ao contágio. Mas serão indicados parâmetros para sua confecção e sobre qual material adotar. “Costureiras, artesãos e tecelagens devem ser engajadas na produção das melhores máscaras possíveis, o que passa a criar uma cadeia de política pública, científica e social. Eu sempre defendi que a ciência é uma forma de transformação social e este é um exemplo de como num momento de emergência isso pode funcionar”, avaliou. Um grupo de cientistas testou diversos materiais comuns e os subcomitês do Nordeste vão dar as diretrizes, com bases nesses dados obtidos.
Profissionais de saúde e suprimentos estão no centro das atenções. A proteção de quem está na linha de frente é uma das prioridades do Comitê. “Vamos ter que começar a suprir a produção de equipamentos e outros materiais dentro do país, redirecionando cadeias produtivas locais, já que o mercado internacional não pode mais suprir”, apontou o cientista. “Nós não vamos receber nada dos Estados Unidos, eles estão desesperados lá dentro, ou da Comunidade Europeia, estamos com um problema diplomático com a China, então vamos precisar produzir nosso próprio material”, avalia Nicolelis.

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Clique aqui para assistir o vídeo completo com o webinar, que teve apoio da Ayoo.

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