Num dia ensolarado que de repente ficava tempestuoso, Pacheco sempre queria saber se a gente tinha parado para ver a chuva. E então ele vinha com a canção preferida dele (Have you Ever Seen The Rain, do Creedence), abrindo aquele sorrisão seguido de uma gargalhada sonora e gostosa de ouvir.
– Isso que é música, seu xibungo!
Foi exatamente num dia assim, nesta sexta-feira ensolarada e chuvosa de setembro, que ele resolveu vazar daqui.
– Preciso lhe falar sobre Pacheco.
– Aconteceu algo?
– Está entubado.
Envio para a filha dele um mantra poderosíssimo que, como todo mantra poderosíssimo, não funciona nessas horas.
– Pacheco morreu.
É muito difícil aceitar a partida desse sujeito grandalhão, que mais parecia um titã, nunca alguém que pudesse morrer. Completamos em 2026 uma amizade de 42 anos, iniciada na turma de 1984 da Escola de Biblioteconomia e Comunicação da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Eu, com 20 anos, representante da classe média baixa suburbana; ele, com 18, já dirigindo um carrão e trabalhando como locutor de um programa de rock na Rádio Transamérica.
Eu era tímido e bastante reservado, já quase niilista e sem muito interesse nas pessoas. Ele, sagitariano e dono do mundo, conversava com Deus e com o diabo. Na primeira quase conversa que tivemos, ele me perguntou por que eu continuava raspando a cabeça se já estávamos terminando o primeiro semestre. “Porque eu quero”, respondi. E me afastei. Como disse Jorge Luís Borges, “O próximo se afasta”. Mas ele persistiu. Me encontrou depois na biblioteca da Universidade, onde eu procurava um livro de Rilke chamado “Os Cadernos de Malte Laurids Brigge”. Ele puxou conversa comigo e, não sei exatamente por que, acabamos falando sobre Paulo Francis, algo que nos uniu. Mas não era o Paulo Francis reacionário que surgiria anos depois. Era o Paulo Francis dos artigos de quinta-feira na Folha de S. Paulo, aquele jornalista incrível que fez o prefácio do livro “Teatro de Protesto”, de Robert Brustein, com todos os ensinamentos sobre Ibsen, Strindberg, Checov, Bernard Shaw, Brecht, Pirandello, entre outros (talvez Camus, Artaud, não me lembro bem).
Um mês depois, Pacheco apareceu com o livro de Rilke que eu não tinha encontrado na biblioteca. Ele tinha ido a São Paulo e, como comprava muitos livros, acabou garimpando num sebo o livro que eu tanto procurava. E me deu de presente, mas com a seguinte dedicatória:
“Para Paulo Dantão, que não precisa de Rilke, mas sim de uma boceta chupeta”.
Esse era o Pachecão. Sempre chamando os amigos de bichona, pederasta ou xibungo. Tinha fixação por esse tipo de brincadeira, vai saber o porquê. Sempre ficava puto se a gente tivesse lido um livro que ele ainda não tinha lido. Lá ia ele comprar o livro. Claro que ele comprou também pra ele um exemplar dos Cadernos de Rilke.
Para quem não sabe, Pacheco fez uma das últimas entrevistas com Raul Seixas, seu artista preferido, na Rádio Transamérica. Tinha milhões de entrevistas gravadas para escrever a biografia definitiva do maluco beleza. Fez diversos artigos que foram publicados em diversos veículos nacionais. Pacheco foi também mestre em criar rádios piratas nas mais diversas frequências de rádio na Bahia. Doido varrido. Invadia a programação das rádios oficiais com rock da mais alta qualidade. Ele seguia trabalhando em rádio e eu nos jornais impressos, até que finalmente trabalhamos juntos no mesmo jornal, o Bahia Hoje, de Pedro Irujo. Na ocasião, ele inventou de colocar meu nome como diretor na chapa que concorria à presidência do Sindicato dos Jornalistas da Bahia. No dia da eleição, reconhecendo que eu seria um péssimo diretor, votei na outra chapa, que era do PC do B. Mas a nossa chapa acabou ganhando e nos tornamos, eu e Pacheco, diretores do Sinjorba.
Eis então que estoura uma greve no jornal. Pedro Irujo tinha colocado como diretor um sujeito chamado Alberto Balazeiro, que chegou cantando o terror e demitindo todo mundo. A redação se reuniu e ficou acertado que, se houvesse mais alguma demissão, entraríamos em greve. Não deu outra. Alberto Balazeiro demitiu justamente as duas pessoas (um fotógrafo e um repórter da editoria de política) que haviam se pronunciado de forma mais contundente na reunião da redação. E no dia seguinte, como havíamos combinado, greve pela readmissão dos dois e por uma pauta de reivindicações que já não me lembro mais qual era.
Pacheco, como líder grevista, era uma onda. Nada de Édson Gomes no carro de som. Tocava o disco Amoroso, de João Gilberto. Ficamos em greve 33 dias, até que Pedro Irujo decidiu demitir todo mundo, menos nós dois, eu e Pacheco, que tínhamos estabilidade sindical. Isso foi muito pior pra nós, pois todo mundo recebeu suas indenizações e contra nós foi movida uma ação para nos demitir por justa causa.
Uns dois ou três anos depois, eu me tornei editor chefe da Gazeta Mercantil no Nordeste, chamei Pacheco para ser repórter especial e ele aceitou. Fiquei menos de um ano na Gazeta, mas Pacheco continuou no jornal por longos anos. E eu me tornei assessor de imprensa da Petrobras, também por longos anos.
Quarenta e dois anos de amizade dá um livro. Vou pular alguns anos.
Depois da minha longa passagem pela Petrobras, um período em Angola e retorno ao Brasil pouco antes do golpe contra Dilma Rousseff, fiquei sem trabalho um tempão. Pacheco tinha se tornado secretário de Comunicação do prefeito ACM Neto e me chamou para trabalhar com ele.
E Pacheco foi um grande secretário municipal, mas não teve o devido reconhecimento do prefeito. Todo governador ou prefeito gosta de bajulação e esse nunca foi o perfil de Pacheco. Sabe aquela história de que ACM Neto e Jerônimo Roddrugues costumam telefonar de madrugada para seus secretários, desrespeitando as leis trabalhistas? Com Pacheco, nem ACM Neto nem Jerônimo conseguiriam falar de madrugada. E teriam mesmo de se enquadrar, porque Pacheco sempre estaria cantando a música “Medo da Chuva”, que começa assim: “É pena que você pense que eu sou seu escravo”.
Pacheco havia perdido o medo da chuva. Era um profissional responsável, competente e brilhante, desde que fossem respeitados os limites de uma relação de trabalho saudável e ética. Trabalhou com ACM Neto, estava agora trabalhando no governo Jerônimo. Have you ever seem the rain? Aumente o rádio!!!


