
Imagem ilustrativa gerada por IA.
Enquanto empresas de comunicação acumulam, há anos, benefícios fiscais e mecanismos de redução de custos, jornalistas seguem enfrentando dificuldades para garantir reajustes salariais dignos e a valorização do seu trabalho. O contraste ganha ainda mais relevância em um momento em que sindicatos da categoria em todo o país estão em negociação coletiva com os empregadores.
Levantamento do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), elaborado para a Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ), mostra que, somente entre janeiro e agosto de 2024, empresas de comunicação receberam R$ 462,1 milhões em desoneração da folha de pagamento.
O benefício fez parte de uma política adotada com a justificativa de preservar empregos e estimular a atividade econômica. Durante anos, as empresas beneficiadas deixaram de recolher a contribuição patronal de 20% sobre a folha e passaram a contribuir com um percentual menor sobre a receita bruta.
A economia proporcionada ao setor, no entanto, não chegou aos trabalhadores na forma de valorização salarial. Ano após ano, as negociações coletivas dos jornalistas são marcadas pela resistência patronal à concessão de reajustes que recomponham as perdas e garantam ganhos reais à categoria.
Economia para as empresas, perdas para os trabalhadores
Na Bahia, o Sinjorba tem acompanhado esse cenário diretamente nas mesas de negociação. Apesar das mudanças profundas no jornalismo e do aumento das exigências sobre os profissionais, a valorização salarial não avança no mesmo ritmo.
Ao mesmo tempo, as redações estão cada vez mais reduzidas, com menos profissionais para dar conta de uma rotina de produção intensa e multiplataforma. A diminuição das equipes amplia a sobrecarga de quem permanece, estimula o acúmulo de funções, prolonga jornadas e aumenta a pressão sobre trabalhadores que precisam produzir mais, em menos tempo e para diferentes formatos.
Para o Sindicato, não é razoável que o discurso de dificuldades financeiras seja repetido todos os anos sem considerar o histórico de incentivos e redução de custos concedidos ao setor. “Os trabalhadores têm sido chamados permanentemente a absorver as transformações do jornalismo, produzir mais, assumir novas funções e se adaptar às mudanças tecnológicas. As redações estão menores, a sobrecarga aumentou e, quando chega o momento de discutir salário, o discurso é sempre de contenção. As empresas economizaram com incentivos públicos, enquanto os jornalistas acumulam perdas. Essa conta não pode continuar sendo paga apenas pelos trabalhadores”, afirma a presidenta do Sinjorba, Fernanda Gama.
A falta de valorização salarial ocorre paralelamente a um processo mais amplo de precarização. Dados reunidos pela FENAJ mostram a redução dos empregos formais nas empresas de comunicação, ao mesmo tempo em que avançam a pejotização e outras formas de contratação com menos direitos.
Entre 2013 e 2023, período de vigência da desoneração da folha, as empresas de comunicação reduziram em aproximadamente 18% seus quadros de jornalistas. No segmento de jornais e revistas, o número de empregos formais em funções jornalísticas caiu de 9.870, em 2015, para 4.709 em 2025.

Para o Sinjorba, os números revelam que os benefícios concedidos às empresas não resultaram em contrapartidas efetivas para quem produz diariamente o jornalismo.
A discussão está no centro da Campanha Salarial Nacional Unificada dos Jornalistas 2026, que tem como lema “A notícia vale. Quem produz, também.” A mobilização defende reajustes dignos, ganhos reais, respeito à jornada profissional e melhores condições de trabalho.
O levantamento completo sobre os incentivos concedidos às empresas de comunicação e seus impactos no emprego e nas relações de trabalho pode ser conferido no site da FENAJ.


