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Brasil registra recorde de afastamentos por transtornos mentais e liga alerta quanto à saúde do trabalhador

por Sinjorba

O Brasil vive um cenário alarmante de adoecimento da classe trabalhadora. Em 2025, foram registrados mais de 4 milhões de afastamentos do trabalho por incapacidade temporária, o maior número dos últimos cinco anos. Entre as causas, os transtornos mentais ganharam protagonismo e já aparecem como a segunda principal razão para concessão de benefícios pelo INSS, atrás apenas das doenças da coluna.

Dados do Ministério da Previdência Social (MPS) mostram que 546.254 licenças foram concedidas no último ano por problemas de saúde mental, como ansiedade e depressão. O número representa um crescimento de 15% em relação a 2024 e configura o maior patamar da série histórica recente, escancarando uma crise que afeta diretamente as relações de trabalho no país.

A ansiedade lidera o ranking dos transtornos mentais, com 166.489 afastamentos, seguida pelos episódios depressivos, responsáveis por 126.608 licenças. Outras doenças, como transtorno bipolar, estresse grave, dependência química, esquizofrenia e alcoolismo, também apresentaram crescimento em comparação com o ano anterior.

Especialistas ouvidos apontam que o avanço do adoecimento mental está diretamente relacionado às condições impostas pelo atual modelo de organização do trabalho. Jornadas extensas, metas excessivas, vínculos precários, insegurança profissional e pressão constante têm contribuído para um cenário de estresse crônico entre os trabalhadores.

“O que estamos vendo é um problema estrutural. As transformações no mercado de trabalho vêm empurrando as pessoas para um adoecimento contínuo, que agora aparece com mais força nos dados oficiais”, explica o psiquiatra Arthur Danila, coordenador do Programa de Mudança de Hábito e Estilo de Vida da USP.

Além do impacto social, o aumento dos afastamentos também gera reflexos econômicos. Estimativas apontam que os custos com benefícios pagos pelo INSS em decorrência dos transtornos mentais podem ter alcançado R$ 3,5 bilhões, considerando o tempo médio de afastamento e o valor dos auxílios concedidos.

Gênero

Os dados revelam ainda um recorte de gênero preocupante. As mulheres concentram mais de 60% dos afastamentos por saúde mental, reflexo de desigualdades históricas no mercado de trabalho, como salários menores, dupla e tripla jornada e a sobrecarga com tarefas de cuidado. Especialistas defendem que a análise do problema precisa considerar essas diferenças sociais para que as soluções sejam efetivas.

Enquanto os números avançam, medidas que poderiam contribuir para a prevenção seguem adiadas. A atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que previa a inclusão dos riscos psicossociais entre os itens fiscalizados no ambiente de trabalho, teve sua implementação postergada após pressão do setor empresarial. Para especialistas, o atraso contribui para a manutenção do atual cenário de adoecimento.

Diante dos recordes consecutivos, cresce a cobrança por políticas públicas, fiscalização efetiva e responsabilidade das empresas na promoção da saúde mental. Para pesquisadores e profissionais da área, enfrentar o problema é fundamental não apenas para reduzir afastamentos, mas para garantir dignidade, direitos e qualidade de vida à classe trabalhadora.

Jornalismo

No jornalismo, o cenário de adoecimento mental também é motivo de grande preocupação. A categoria tem registrado um número crescente de afastamentos relacionados ao estresse, à ansiedade, à depressão e a outros transtornos mentais, diretamente associados às condições de trabalho impostas nas redações e fora delas.

A intensificação das jornadas, a pressão permanente por produtividade, a redução de equipes, a insegurança trabalhista e o assédio moral, muitas vezes naturalizado nas rotinas profissionais, compõem um ambiente que favorece o desgaste emocional e psicológico dos jornalistas. Esse quadro se agrava em um contexto de fragilização de direitos, vínculos precários e constantes ameaças à estabilidade profissional.

O impacto é ainda mais profundo quando se observa o recorte de gênero. As mulheres representam cerca de 60% da categoria e figuram também entre as mais atingidas por afastamentos decorrentes de problemas de saúde mental (também 60%, conforme os dados do MPS). Além das pressões típicas do exercício profissional, elas enfrentam desigualdades estruturais, como salários menores, menor acesso a cargos de chefia e a sobrecarga da dupla ou tripla jornada, sem falar que são as maiores vítimas do assédio, tanto no trabalho como na rua, na cobertura das pautas.

Diante desse cenário, ganha relevância a pesquisa nacional sobre saúde mental no jornalismo, realizada pela Fundacentro em parceria com a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), que busca mapear as condições de trabalho e os impactos sobre a saúde dos profissionais. A participação dos jornalistas é fundamental para dar visibilidade ao problema, fortalecer a luta por ambientes de trabalho mais saudáveis e subsidiar políticas públicas e ações institucionais de proteção à categoria. Clique aqui e participe.