Jaciara Santos
Nos últimos dias, temos nos deparado com algumas interpelações acerca do posicionamento adotado em caráter institucional pela categoria em relação à atual disputa presidencial. A principal argumentação é a de que “jornalista precisa ser imparcial e não deve ter lado”. Entre insinuações veladas e acusações explícitas, os críticos apontam um suposto risco à apregoada isenção do jornalismo.
A quem nos acusa de militância partidária, devemos responder com firmeza e serenidade: talvez, mais do que lado, o jornalista precisa ter memória. Um mergulho rápido na história do país mostra o quanto o jornalismo precisa se posicionar em momentos de ameaça às liberdades individuais e coletivas. Não é um fenômeno recente. Remonta a séculos passados e está registrado em documentos históricos.
Comecemos por Luiz Gama (1830—1882), jornalista, escritor e filho de uma africana escravizada, que fez da palavra um instrumento de combate à escravidão e de defesa da liberdade. Foi uma das principais vozes do movimento abolicionista brasileiro.
José do Patrocínio (1853—1905), outro expoente do jornalismo abolicionista, fez da imprensa uma trincheira de luta contra a escravidão. Atuou na Gazeta da Tarde e fundou, em 1887, o jornal Cidade do Rio. Sua militância não se encerrou com a Abolição: opôs-se a Floriano Peixoto, foi desterrado para Cucuí, no interior do Amazonas, em 1892, e enfrentou a suspensão de seu jornal em 1893.
Avancemos para os anos 1960. Quem cobra isenção jornalística conhece nomes como Mário Alves de Souza Vieira (1923—1970) e Vladimir Herzog (1937—1975)? Se não conhece, deveria. Porque são colegas que pagaram alto preço por combater um regime autoritário que não admitia o contraditório.
Para quem esqueceu, um breve histórico, verificável no relatório “Comissão Nacional da Verdade, volume III – Mortos e desaparecidos políticos”
Baiano de Sento Sé, Mário era jornalista e dirigente do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário. Em janeiro de 1970, foi preso ilegalmente e morto sob tortura por agentes da repressão, no Rio de Janeiro. Figura entre os desaparecidos da ditadura — seu corpo nunca foi localizado. Em 1975, Vladimir foi assassinado pela ditadura militar brasileira nas instalações do DOI-CODI, quartel-general do II Exército, em São Paulo, após ter se apresentado voluntariamente ao órgão para “prestar esclarecimentos” sobre suas ligações com o Partido Comunista Brasileiro (PCB).
Bahia na mira
Aqui, na Bahia, não passamos incólumes. Na madrugada de 1º de abril de 1964, uma tropa do Exército Brasileiro invadiu a redação e as oficinas do Jornal da Bahia, no Largo da Barroquinha. A manchete “Rebelião contra o governo” — já montada para publicação na primeira página — foi retirada da linha de montagem. Deveria ser substituída pela frase “A Nação que se salvou a si mesma do jugo comunista”. O jornalista e escritor Nelson Cerqueira, hoje com 84 anos e atual primeiro-tesoureiro da Academia de Letras da Bahia, era o plantonista. Coube a ele resistir. Argumentou que o espaço editorial não comportava o novo título. E o JBa. foi para as bancas com o espaço censurado (título e texto) em branco. Em 2014, em depoimento à Comissão Estadual da Verdade, Cerqueira relatou que o veículo foi o primeiro em todo o país a sofrer “censura física” do regime militar.
Naquele mesmo abril de 1964, a repressão política chegaria também ao edifício-sede da Associação Bahiana de Imprensa (ABI), na Praça da Sé, onde funcionava a Assembleia Legislativa da Bahia. No dia 28, três deputados estaduais, entre eles o jornalista Sebastião Nery (1932—2024), tiveram seus mandatos cassados. A Assembleia permaneceria no prédio até 1974, período em que outros parlamentares baianos também foram atingidos pelas cassações da ditadura militar.
O Sindicato dos Jornalistas Profissionais da Bahia (Sinjorba), cuja origem remonta a 1945, também sofreu a repressão da ditadura militar. Submetido à intervenção entre 1971 e 1976, chegou a atuar clandestinamente, mantendo viva a organização da categoria em meio às restrições impostas pelo regime.

Manifesto contra o cerceamento à imprensa na ditadura militar, publicado no Boletim ABI-Junho 1977 (Reprodução)
Saltemos para 1977. Em 7 de junho, cerca de três mil jornalistas brasileiros, tendo à frente o presidente da Associação Brasileira de Imprensa, Prudente de Moraes Neto, assinavam um manifesto contra a censura e todas as formas de cerceamento à imprensa durante a ditadura militar. Publicado no Boletim ABI-Junho 1977, o documento foi lido no Senado Federal e na Câmara dos Deputados por políticos do MDB. Mais que um abaixo-assinado, o protesto foi a base para a escolha do 7 de junho como Dia Nacional da Liberdade de Imprensa.
Compromisso profissional
Agora, voltemos ao presente. Avaliemos a nossa pauta. Estamos exercendo o nosso compromisso profissional e não explicitando uma mera preferência político-eleitoral. Nosso posicionamento é: defender a liberdade de imprensa e de expressão, combater a censura e o autoritarismo, proteger o direito da sociedade à informação, apurar com rigor os fatos relacionados a todos os candidatos — inclusive ou, principalmente, àqueles cujas ideias se aproximam das nossas. Se isso representa a escolha de um lado, assumimos essa posição, perfeitamente respaldada pelo Código de Ética da FENAJ, notadamente em seus artigos 2º e 6º.
Afinal, as instituições que representam os jornalistas não podem ser omissas. Exatamente para não incorrermos nos mesmos erros do passado. Porque, sabemos, em muitos momentos nem toda a imprensa brasileira esteve ao lado da democracia. Como não está agora. Veículos importantes apoiaram o golpe de 1964, assim como apoiam hoje o candidato que flerta com o retrocesso. Outros sofreram censura ou se opuseram à ditadura.
Algo parecido com o cenário que se avizinha, caso o candidato da oposição vença as eleições de 2026. Ele já anunciou a intenção de usar a maioria na Câmara e no Senado, alinhada com a extrema-direita, para alterar a Constituição Federal. Uma declaração que, longe de tranquilizar, acende o alerta para o risco de retrocesso e de ameaça às nossas liberdades democráticas.
E é por essas razões que podemos afirmar: jornalista tem e deve ter lado, sim. Porque tem memória. E a memória indica que escolhamos o lado da democracia.



